Evitando enfermidades

O estabelecimento de enfermidades em um cultivo está diretamente relacionado à ação combinada de 3 fatores:

* Nível de resistência (inata e adquirida) do peixe,
* presença de agentes verdadeiramente patogênicos compatíveis com a espécie de peixe em cultivo e
* carga de agentes patogênicos oportunistas no sistema.

Em sistemas intensivos e semi-intensivos de piscicultura, os níveis de resistência (inata e adquirida) são distintos daqueles encontrados no meio ambiente.

Os peixes são mantidos em densidades relativamente altas e os parâmetros ambientais (ex. oxigênio dissolvido, pH e temperatura) muitas vezes estabilizados através da utilização de recursos artificiais, tais como aeradores, filtros e rápida circulação da água. Em conseqüência, o ambiente do sistema de cultivo é frágil e exposto a eventuais variações, às quais podem ser iniciadoras de estresse. A minimização do estresse é obtida através de práticas adequadas de manejo e manipulação.

Dentre os principais agentes estressantes que causam redução da resistência em peixes cultivados e que devem ser gerenciados adequadamente estão:

a) Qualidade de água (ex.pH, dureza da água, concentração de gases dissolvidos, amônia, poluição) b) Fatores físicos (manipulação, densidade de estocagem, transporte, e outras formas de distúrbios físicos) c) Fatores biológicos (presença de predadores, bloom de macrófitas e algas, comportamento agressivo e intraespecífico).

Quando as situações estressantes são inevitáveis e previsíveis, tais como a chegada do inverno nas regiões sudeste e sul do país ou a limitada disponibilidade de água de boa qualidade e quantidade, o piscicultor pode promover o aumento na capacidade de resistência dos animais cultivados através da continuação das práticas usuais de manejo. Pode promover ainda outras medidas visando incrementar as condições ambientais (ex. redução da densidade de estocagem). Mas o oferecimento de ração de maior qualidade é uma das formas mais objetivas de melhorar o estado de higidez (saúde) do plantel e, consequentemente, aumentar sua resistência às enfermidades.

Além de nutrientes básicos disponibilizados na ração, tem se tornado comum a adição de altas doses de vitamina C (ácido ascórbico) como um estimulante de sistema imunológico. A administração dessa vitamina tem sido feita como um mecanismo de prevenção de enfermidades, como para reduzir taxas de perdas quando estas já estão estabelecidas no sistema de cultivo.

Apesar da maioria dos animais ser capaz de sintetizar ácido ascórbico, alguns dentre eles os peixes, dependem da dieta para prevenir as conseqüências de sua deficiência. A vitamina C aumenta significativamente as defesas celulares não específicas do organismo. E atua, ainda, na formação de tecido conectivo e em relações associadas à excreção de drogas e produtos tóxicos.

Resposta imunológica

A grande discussão sobre o uso dessa vitamina em piscicultura está relacionada às concentrações que devem ser adicionadas à ração, para que se promova o incremento da proteção imunológica. A concentração de ácido ascórbico necessária para manter o crescimento ideal do peixe cultivado pode ser menos que aquela requerida para que o animal apresente maior resistência às doenças e tolerância a agentes estressantes ambientais.

Alguns autores sugerem que a reposta imunológica do peixe (ex. bagre americano) seja do tipo “tudo ou nada”. Quando a vitamina C não está disponível, ocorre alto percentual de mortalidade na exposição às epidemias. Quando essa vitamina está disponível na dieta, as taxas e mortalidade dos peixes são significativamente reduzidas. No caso do bagre americano, concentração de 25ppm disponibilizada ao peixe, resulta em um significante aumento da sobrevivência às epidemias provocadas por bactérias patogênicas. O uso de concentrações maiores na ração é considerado desnecessário. A determinação das concentrações necessárias de ácido ascórbico nas rações é difícil devido à sua alta instabilidade. A instabilidade da molécula da vitamina C é inversamente proporcional à intensidade de umidade, luz e calor. Diversos métodos físicos foram desenvolvidos para proteger a molécula de ácido ascórbico de processos oxidativos, tais como a encapsulação com etil-celulose e com cêras e gorduras de alto ponto de fusão.

Método químicos de estabilização, tais como reações de estereficação, têm implementado sua estabilidade de 4-100 vezes aquela observada para ácido ascórbico não modificado. A baixa estabilidade da molécula de vitamina C pode ser compensada também pelo aumento da sua concentração nas rações, mas se a ração irá permanecer em estoques por muitas semanas, o uso da vitamina C estabilizada parece ser a opção mais adequada.

Outras vitaminas

Outras vitaminas são consideradas imunoestimulantes de mamíferos e provavelmente funcionam de maneira semelhante para peixes (ex. A, B6, B12, D, ácido fólico). Muitas vitaminas parecem atuar, principalmente, sobre a resposta imunológica específica (humoral). além de ofertas de vitaminas, a vacinação tem sido um importante recurso para “estimular a resposta imunológica específica” de diversas espécies de peixes cultivadas, principalmente trutas e salmões.

Este recurso tem sido amplamente utilizado em diversos países produtores e promove a imunidade contra agentes patogênicos específicos, geralmente microorganismos e vírus. Essa prática existe na piscicultura brasileira, e era de se esperar. Como ainda não existem no país grupos especializados neste estudo, conhece-se muito pouco sobre os microorganismos patogênicos das espécies aqui cultivadas e, portanto, não existe sentido em se ministrar vacinas de ação específica.

Enquanto o Brasil está muito atrasado na área de prevenção às enfermidades de peixes cultivados (aliás, como em todas as áreas vinculadas à esse campo de atuação), novas tecnologias utilizadas para oferecer o incremento da resistência destes peixes são desenvolvidas em diversos países do mundo.

Vacinas são desenvolvidas diariamente, não apenas para agentes verdadeiramente patogênicos (ex. aeronomas salmonicida), mas também para aqueles considerados oportunistas (ex. aeronomas hidrophila). A prática de desenvolver e administrar vacinas específicas para agentes patogênicos oportunistas, como realizada na China, é injustificada, pois esses organismos são facilmente controlados com um manejo correto de atividades.

Projetos em desenvolvimento na University of Aberdeen (Reino Unido) e em Oregon State University (EUA), por exemplo estão promovendo metodologia para utilização da Iterleucina I beta. Interleucina I beta é uma citonicina com grande poder mediador da ação de linfócitos, sendo um intermediário de reação imunológica com um enorme potencial imunoestimulante.

Fonte: Por Walter A. Boeger, PHD e Ana Tereza B. Guimarães
Pesquisadores do Departamento de Zoologia, Univ. Fed. Paraná